Conto
Dalton Trevisan
Na rua de casas iguais morava, há muitos anos, um casal de velhos. Ela o esperava, costurando na cadeira de embalo da varanda e, quando ele vinha pela rua, com um pacote no braço, descia, de chinelos, os dois degraus da varanda e lhe sorria, com o portão aberto. Cruzavam o pequeno jardim e, apenas na porta, por causa dos vizinhos, mas ainda antes de entrar, ela lhe erguia a cabeça, sem nenhum fio branco, e ele a beijava na testa. Estavam sempre juntos, lidando no seu quintal, ele com as couves, ela com sua coleção de cactos. Quando deixavam aberta a porta da cozinha, os vizinhos podiam ver que ele enxugava a louça para a mulher. E, aos sábados, saíam para o seu passeio diante das vitrinas, ela, gorda, ainda bonita, de olhos azuis e ele, magro, baixo, de preto. Nas noites de verão, ela usava vestidos brancos, de pernas nuas, ele não, sempre de preto. Havia um mistério na vida deles, que nenhum vizinho conhecia. Sabia-se vagamente que os filhos tinham morrido num desastre, há muitos anos. O casal de velhos abandonou tudo, casa, túmulos, bichos e se mudara para aquela cidade, naquela rua. Eram os dois, sem cão, gato, passarinho, nem mesmo galinhas. Tinham medo de se afeiçoar a qualquer coisa. Algumas vezes, na ausência do marido, ela trazia ossos para os cães vagabundos que cheiravam o portão. Quando engordavam uma galinha, a mulher se enternecia por ela e não tinha coragem de matá-la. Então, o velho desmanchou o galinheiro e, no seu lugar, plantou uns pés de couve. Arrancou a única roseira que crescia num canto do jardim; nem a uma rosa se atreviam a dar os seus restos de amor.
Afora a viagem, que faziam uma vez por ano para visitar o túmulo dos filhos, não saíam de casa, o velho fumando seu cachimbo, a velha trançando as agulhas de tricô, a não ser no seu clássico passeio dos sábados. E foi num sábado que, ao abrir a porta, eles acharam a seus pés, uma carta. Era estranho, porque ninguém lhes escrevia, os dois sozinhos no mundo, e confabularam antes de se decidir a abri-la. Era um envelope azul, sem qualquer endereço. A mulher propôs rasgá-lo, sem ler. Já tinham sofrido demais. Ele respondeu que ninguém podia mais fazer-lhes mal. Não queimou a carta, não se apressou de abri-la, deixou-a sobre a mesa. Sentaram-se um diante do outro, sob o abajur azul da sala, ela com seu tricô, ele com seu jornal. Às vezes, ela curvava a cabeça, mordendo uma agulha na boca e com a outra contando os pontos. Quando cbegava ao fim, tinha de contar a linha de novo: pensava na carta sobre a mesa. O homem lia com o jornal dobrado, no joelho, e leu duas vezes cada linha para entendê-la: pensava na carta sobre a mesa. O seu cachimbo apagou, não o acendeu, os olhos parados na mesma notícia, ouvindo apenas o seco bater das agulhas entre os dedos da mulher. Então, pegou a carta e abriu-a. Achou um pedaço de papel dobrado, com duas palavras: cOrNo MaNsO, escritas com grandes letras recortadas de jornal. Nada mais, data ou assinatura. Entregou o papel à mulher que, depois de ler, o olhou. Nenhum falou. A mulher se ergueu, segurando a carta na ponta dos dedos. Onde é que você vai? o homem perguntou. Queimar... ela respondeu. Não, ele disse. Dobrou o papel dentro do envelope azul e guardou-o no bolso. Juntou para a mulher a toalhinha que tinha caído no chão e continuou a ler o jornal e em cada linha, aquela noite, leu as duas palavras da carta.
Não estava mais certo de que ninguém podia fazer-lhes mal. Antes da mulher se erguer e guardar a cestinha com os fios e as agulhas, segurou-lhe a mão para consolá-la: aposto, minha velha, disse, que a mesma carta foi jogada sob a porta de todas as casas da rua. As vozes das sereias cantam ainda no coração dos velhos? Nem mesmo um pobre casal de velhos estava a salvo. Haviam-lhes tirado os filhos, os bichos, a cidade. Agora, queriam separá-los um do outro.
O homem esqueceu a carta no bolso e passou-se outra semana. No sábado, de volta do seu passeio, antes de abrir a porta, sabia que ela estava ali, azul sobre o capacho. A mulher pisou na carta, fingindo que não a via. Ele a juntou e guardou no bolso. Quase no fim do serão, sem erguer a cabeça da toalhinha, contando sempre a mesma linha, ela perguntou: você não vai ler a sua carta? Olhava-a, fingindo que lia o jornal, admirando-lhe a bela cabeça, sem nenhum cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, eram azuis como no primeiro dia. Eu já sei o que diz, ele respondeu. Então por que não a queima? É um jogo, minha velha, disse, mostrando o envelope azul entre os dedos: nenhum sobrescrito e fechado. Rasgou-o numa ponta e tirou o papel dobrado: duas palavras, as mesmas, nas letras recortadas de jornal. Soprou o envelope, sacudiu-o sobre o tapete, mais nada. A mulher tricoteava, como se não visse a carta. Ele a guardou no bolso, com a outra e continuou a ler em cada linha do jornal aquelas duas palavras. Ela não lhe perguntou, como se soubesse. Tinha o rosto oculto pela sombra do abajur. O homem reparou que ela desmanchava um ponto errado na toalhinha. Eram os dedos que tricoteavam ou as mãos que tremiam?
Ele acordou com dor de cabeça, no meio da noite, levantou-se da cama e foi beber água no filtro. Afastou a cortina e, na rua deserta, viu na sombra dum muro, o vulto daquele homem. Ficou ali, com a mão crispada na cortina, até o homem ir-se embora. Deitou-se, de costas para a mulher, (sabia que estava acordada e de olhos abertos para ele), imaginando quem seria o homem na sombra do muro. E pensou, pela primeira vez, se a carta não podia ser para ele mesmo.
De manhã, esqueceu a ideia e, deitado na cama, observava de olhos meio fechados a mulher, que se vestia para ir às compras. Diante do guarda-roupa, ela escolhia um vestido. Os seus vestidos brancos a deixavam mais gorda. Esperou-o para tomarem café juntos, como todas as manhãs e, quando ela fechou a porta, foi olhá-la pela janela. Era ela mesma, a sua mulher. O homem se sentiu envergonhado e fechou os olhos, dizendo: minha velha, me perdoe... Quando os abriu, notou que a mulher olhava para a janela, ainda que não pudesse vê-lo, atrás da cortina. Por que olhara a janela? Para dar-lhe adeus, se ele ali estivesse ou para saber se desconfiava dela?
No sábado seguinte, quis propor-lhe ficarem em casa, de luzes apagadas e surpreenderem o autor das cartas. Ao vê-la tão alegre, porque iam passear, não teve coragem e saíram. Durante o passeio pensou o tempo todo se era apenas ele que recebia as cartas. Não podia abordar um dos vizinhos no portão e perguntar-lhe aquilo. As casas da rua, de aluguel, eram todas iguais. Podia ser engano, o envelope não tinha endereço. Se, ao menos citasse nomes, horas, lugares... Quando abriu a porta, lá estava ela: a carta azul. Desta vez, não a leu diante da mulher. Guardou-a no bolso, junto com as outras e pôs-se a ler o seu jornal, sob o abajur. Quando virava as páginas, surpreendia o rosto da mulher debruçado sobre as agulhas. Era uma toalhinha difícil, porque há meses trabalhava nela. Como se lesse no jornal, ele lhe contou a história de Penélope, que desfazia de noite, à luz das velas, as linhas trançadas durante o dia, para ganhar tempo dos seus pretendentes, esperando a volta do senhor seu marido. Pela primeira vez, pensou se Penélope não teria enganado ao marido ausente. Para quem era a mortalha que ela bordava? Teria continuado a trançar suas agulhas após a volta de Ulisses? Homero não fala. Nem a mulher, que não perguntou sobre a carta.
ANÁLISE DO CONTO
Conta a lenda grega que durante a ausência do marido, Penélope – esposa de Ulisses e mãe de Telêmaco - foi pedida em casamento por diversos pretendentes, prometendo escolher um deles logo que concluísse a peça de bordado que estava tecendo. Acontece que todas as noites ela desfazia o trabalho realizado durante o dia, adiando dessa maneira, indefinidamente, a decisão que os candidatos à sua mão aguardavam ansiosos. E se assim procedia era porque, quando seu esposo partiu para a guerra de Tróia, confiou-lhe a guarda do reino da Ítaca, pedindo-lhe que caso não retornasse, ela não se casasse enquanto Telêmaco fosse jovem.
É com base nessa lenda que Dalton Trevisan escreve o conto “Penélope”, incluso na obra “Novelas nada exemplares”. O enredo gira em torno de um casal de idosos que tem sua vida rotineira abalada por uma série de cartas anônimas que resultam no ciúme paranóico do marido e no suicídio da mulher. O texto é uma intertextualidade com a personagem Penélope, não só pelo nome do conto e da personagem, mas, sobretudo, pela simbologia da fiação. O autor vale-se do mito de Penélope para reinventar a história por meio da inversão irônica e criando uma nova situação condizente com os rumos da sociedade e do homem moderno.
Apesar de Trevisan mostrar o lado funesto e inseguro do ser humano, o autor o faz de uma maneira sutil, pois ele não aponta, não culpa e nem defende o marido por seu ciúme doentio, ele limita-se a apresentá-lo. A apresentação “sem juízo de valor” do drama do marido chega ao leitor pela voz de um narrador onisciente, que penetra na consciência da personagem de tal modo que, em certos momentos, não fica evidente se é a voz do narrador ou o pensamento do marido: “Sábado seguinte, durante o passeio, lhe ocorre: só ele recebe a carta? Pode ser engano, não tem direção. Ao menos citasse nome, data, um lugar.”
A narrativa apresenta o processo de construção do ciúme que vai do fluxo de consciência e da imaginação do marido aos acontecimentos concretos: a série de cartas anônimas deixadas na porta do casal, todos os sábados, enquanto seguiam para o passeio costumeiro. Entre a evidência das cartas e a incerteza da traição, o narrador acompanha o conflito do marido e penetra em seu inconsciente afetado pelo ciúme, mas deixa a mulher numa redoma de mistério.
Os pensamentos de Penélope não são conhecidos já que não é narrado o ponto de vista da mulher. Na maioria das vezes, ela aparece tricotando, com poucas falas durante o enredo. São os ciúmes do marido que indagam as atitudes da esposa: “Voltando as folhas, surpreendia o rosto debruçado sobre as agulhas. Toalhinha difícil, trabalhada havia meses. Recordou a lenda de Penélope, que desfazia de noite, à luz do archote, as linhas acabadas durante o dia e, à espera do marido, assim ganhava tempo de seus pretendentes. Calou-se no meio da história: ao marido ausente enganara Penélope? Para quem a mortalha que trançava? Continuou a estalar as agulhas após o regresso de Ulisses?”
O conto é análogo à lenda pelas associações entre as duas personagens que se chamam Penélope e igualmente aparecem relacionadas às fiandeiras, mas se distanciam pela oposição crucial entre vida e morte. Se no mito o que está em jogo é o amor que leva à vida conjugal, no conto é a morte e a desconfiança que provoca a fatal separação do casal.
O ato de fiar representa um eterno retorno pelo processo de tecer e desfazer o trabalho começado e interminável. A escolha de Penélope por desfazer à noite o que fez durante o dia garante-lhe tempo para fabricar suas próprias defesas contra o destino imposto pelos outros. Também no conto, Penélope é uma tecelã e decide o momento em que o trabalho ficará pronto em que cortará os fios que a prendem à vida, determinando a ocasião de sua morte.
Porém, ao contrário do mito, Penélope não suporta a longa espera, o tempo em que o marido “retornaria” a si, superando o ciúme e reconhecendo sua fidelidade. Antes, decide por fim ao drama, sendo senhora de seu destino ao cortar os fios que a ligam à vida, embora ainda dê um tempo ao marido, pelo processo de fazer e desfazer a toalhinha. Ao fazer isso, ela torna-se uma espécie de fiandeira que tece, mede e corta seu destino. E é por ser uma fiandeira que ela embaralha a vida do marido, pois ele estará condenado ao remorso e à culpa pelo suicídio da esposa, já que as cartas prosseguem após a morte dela: “‘Fui justo’, repetia, ‘fui justo’ –, com mão firme girou a chave. Abriu a porta, pisou na carta e, sentando-se na poltrona, lia o jornal em voz alta para não ouvir os gritos do silêncio.”
Assim como no mito, Penélope tece/borda uma toalhinha, fazendo e desfazendo pontos, num trabalho que exige tempo e paciência. Contudo, se no mito, ao bordar a peça “interminável” Penélope perpetua o amor ao marido que está longe, no conto, Penélope tece, perto do marido, a mortalha para si mesma e da separação eterna: “Entrou na sala, viu a toalhinha na mesa – a toalhinha de tricô. Penélope havia concluído a obra, era a própria mortalha que tecia”.
O conto de Dalton Trevisan faz uma inversão, resgatando e se afastando da lenda grega, ao propor um mito às avessas, em que se observa, em vez da fortaleza conjugal, a fragilidade dos laços matrimoniais e do ser humano.
Claudiana Soerensen
http://clau-carpeomnium.blogspot.com/2009/06/penelope-tece-propria-morte.htm
Acesso: 11/11/10
"Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura, que marcha, que não tem medo do risco, por isso recusa o imobilismo. A escola em que se pensa, em que se cria, em que se fala, em que se adivinha, a escola que apaixonadamente diz sim à vida. É fundamental a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal maneira que num dado momento a tua fala seja a tua prática". Paulo Freire
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Quem conta um conto, ganha um ponto
"O MITO É O NADA QUE É TUDO".
Fernando Pessoa - Mensagem
Meus alunos que moram e arrebentam meu coração!!!
Ler é demais! Por isso hoje à noite, fiz minhas leituras pela internet.
Que mundão maravilhoso a rede nos apresenta.
Na sala de aula estamos aprendendo a descobrir a magia da leitura e da escrita.
Então no EducaRede.org.br li as sugestões abaixo e transcrevo-as para vocês se deliciarem.
Tem até resumo, mas, certamente, ler os autores na obra completa,
você vai se apaixonar doidamente.
E o vídeoclip de A Cartomante, bárbaro! Faça uma busca por ele na rede.
Aliás, sou apaixonada por Machado. A Cartomante, Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas são minhas leituras preferidas.
Mas, leiam os resumos da EducaRede.
Ivan Ângelo nos conta a comovente história “Negócio de Menino e Menina”, narrada com uma lógica, nem sempre compreensível pelos adultos, mostrando a acirrada disputa entre um poderoso fazendeiro e um menino pobre e decidido a não vender um passarinho.
Carlos Drummond de Andrade, em “O Torcedor”, demonstra profunda intimidade com as palavras e grande conhecimento da alma humana ao narrar a história de Eváglio, um torcedor do clube de futebol Atlético Mineiro em um jogo de decisão de campeonato. Na saída da casa do amigo, onde assistira ao jogo, ele pega um ônibus lotado da torcida do Flamengo, time vencedor, e se contamina pelo entusiasmo dos flamenguistas. Em poucas palavras, o autor consegue mostrar os diversos sentimentos que o homem experimenta, que vão do medo à simpatia, da insegurança ao alívio.
Em ”Biruta”, de Lygia Fagundes Telles, vamos conhecendo Alonso e seu cachorro Biruta e acompanhamos sua solidão, sua luta pela sobrevivência e para proteger o seu querido cão, companheiro e único amigo. É impossível não nos emocionarmos com esse retrato tão fiel da amizade, do amor do menino Alonso por Biruta e seu medo de se ver em sérias dificuldades pelas traquinagens do cão.
Marcos Rey nos fala de uma passagem na véspera de Natal, que nos faz refletir sobre a sociedade em que vivemos e o polêmico presente de um pai para seu filho no conto “Pega ladrão, Papai Noel”.
“A Marinheirinha” nos traz a pequena e esperta Tininha e seu pai em uma competição marítima. Pedro Bandeira narra com tamanha emoção a saga da menina durante a competição, que nos vemos a seu lado, torcendo e vibrando para que tudo dê certo.
Fernando Sabino trata, em “Passeio”, de um assunto delicado, principalmente para adultos: o momento de comunicar à criança que os pais vão se separar. Narrado sob a ótica de uma menina ingênua, Sabino nos mostra como os adultos complicam demais as coisas. Na verdade, existem situações dolorosas , mas que fazem parte da vida.
Machado de Assis trabalha, em “Um Apólogo”, a discussão entre a agulha e a linha para saber quem das duas é a mais importante. Esse tema aparentemente pueril nos revela uma vigorosa crítica ao comportamento humano.
“Boa de Garfo”, de Luiz Vilela, apresenta um personagem astuto: um homenzinho aparentemente ingênuo que, junto com sua cadela, consegue se dar bem diante de um fazendeiro.
Wander Pirolli mostra, em “Festa”, como uma refeição humilde pode se tornar um evento especial para aqueles que pouco têm.
Só um pouquinho de Machado de Assis
A Cartomante
|Machado de Assis|
O conto sem final feliz foi publicado por Machado de Assis em 1896 em Várias Histórias. O livro é representativo da segunda fase do escritor, que abandonou o Romantismo para inaugurar o Realismo.
Os textos da segunda fase de Machado de Assis se caracterizam pela introspecção, pelo humor e pelo pessimismo com relação à essência do homem e seu relacionamento com o mundo. A Cartomante é exemplo disso. Na trama, Rita, Camilo e Vilela se envolvem num triângulo amoroso trágico. Traição, adultério e paixão permeiam a narrativa.
O conto de Machado de Assis começa com uma menção a Hamlet, de Shakespeare. A famosa frase “há mais cousas no céu e na terra do que sonha nossa filosofia” abre a obra. A personagem Rita, em outras palavras, diz o mesmo. Frente a isso, que tal propor aos alunos a seguinte discussão: porque Machado de Assis teria escolhido a célebre frase de Shakespeare para iniciar a obra? Qual o sentido desse pensamento, no contexto do conto?
Vamos pensar!!!
Dom Casmurro - Publicado pela primeira vez no último ano do século XIX, Dom Casmurro é uma ilustração sob medida para o famoso verso de Fernando Pessoa, em “Mensagem”: “o mito é o nada que é tudo”.
BIOGRAFIA
Machado de Assis
“Joaquim Maria (Machado de Assis) era menino de subúrbio e a vida intelectual do subúrbio era muito diferente da vida intelectual da Corte. Era essa última que atraía Machado de Assis.” (Carlos Faraco)
Mulato, pobre, nascido no subúrbio carioca, Machado de Assis (1939-1908) é uma figura curiosa de nossa literatura. Filho de pai negro e mãe portuguesa, teve uma infância difícil. Desde cedo, o menino vislumbrou o outro lado da sociedade burguesa brasileira, pelas mãos da madrinha, senhora abastada que lhe proporcionava um contato indireto com o outro lado.
Esses aspectos de sua infância ajudam a entender parte de sua obra que, em muitos momentos, tematiza as diferenças sociais e revela uma certa rejeição pela pobreza. Aliás, esse elemento pode ser observado em "Memórias Póstumas", por exemplo, na relação que Brás Cubas estabelece com Marcela, com Dona Plácida e com Quincas Borba.
Pouco se sabe a respeito da formação escolar do menino Machado de Assis, e há suspeitas de que ele não tenha sequer concluído a formação elementar. Apesar disso, a leitura foi desde o início uma de suas grandes paixões. Daí, provavelmente, a erudição presente em sua obra. Sabe-se também que desde o primeiro emprego suas atividades profissionais estiveram, de alguma forma, relacionadas a publicações: foi aprendiz de tipografia, revisor, balconista de livraria e bibliotecário. Mesmo depois de obter um emprego definitivo no Ministério da Agricultura, Viação e Obras Públicas, viveu modestamente de sua produção literária e da tradução de livros de autores estrangeiros.
Autor de muitas obras, Machado escreveu romances, poemas, crônicas, contos, peça de teatro, crítica literária e teatral. "Memórias Póstumas" inicia uma nova fase de sua obra, marcada pela não linearidade da narrativa e pela ênfase dada à caracterização dos personagens, explicitada principalmente pela análise minuciosa e profunda de comportamentos e atitudes. Além disso, nessa obra, estão presentes alguns dos temas caros ao autor: a loucura, o adultério, a alma feminina, entre outros.
Machado revela-se um grande crítico da sociedade brasileira do século XIX, ainda marcada pela escravidão, pela decadência da Monarquia e pela aproximação da República.
Texto original: Neide Aparecida de Almeida
Revisão: Equipe EducaRede
sábado, 28 de março de 2009
A MISSA DO GALO
Machado de Assis
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
- Mas, Senhor Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
- Leio D. Inácia.
Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
- Ainda não foi? Perguntou ela.
- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
- Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
- Não! Qual? Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.
- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
- Justamente: é muito bonito.
- Gosta de romances?
- Gosto.
- Já leu a Moreninha?
- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.
E logo alto:
- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
- Já tenho feito isso.
- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
- Que velha o quê, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto que, também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
- Mais baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
- Eu também sou assim.
- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.
- Foi o que lhe aconteceu hoje.
- Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegávamos novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
- Mais baixo mais baixo...
Havia também umas pausas. Duas outras vezes pareceram-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
- Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
- São bonitos, disse eu.
- Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
- De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
- Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
- Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
- Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá que hão de ser horas; adeus.
- Já serão horas? Perguntei.
- Naturalmente.
- Missa do galo! Repetiram de fora, batendo.
-Vá, vá não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Pretígio - Ediouro - s/d.
ANÁLISE:Lena Leal
A frase inicial já nos leva a ambiguidade: "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta." Como entender, se nem mesmo o narrador entende? É a marca e a técnica que Machado usa em sua narrativa. Teremos sim que tentar elucidar o mistério da alma humana.
O enredo
Missa do galo é um conto de Machado de Assis, que não nos traz revelações surpreendentes, porém, como é próprio do autor, está carregado de reflexões do fundo da alma mostrando-nos as várias faces do comportamento humano. È um traço doce e melancólico sobre a relação homem mulher. Ele faz questão de mostrar o cenário e através dele nos envolve. Ele não faz questão de descrever as suas personagens e é uma característica do Naturalismo. Ele prefere descrever o lado psicológico delas e isso faz uma ruptura entre o que é real e o que é psicológico. É considerado moderno por justamente criar essa atmosfera de um flagrante do nosso dia-a-dia.
A estrutura
Toda a trama acontece na sala da frente, de uma casa mal assombrada, localizada na Rua do Senado, Rio de Janeiro. Havia uma mesa no centro da sala, algumas cadeiras, cortina na janela, um canapé e um espelho. Nas paredes, dois quadros completavam aquela atmosfera de cumplicidade entre Conceição e Nogueira.
O conto mostra o encontro e o tímido diálogo entre um jovem e uma senhora casados numa noite de Natal. Praticamente nada acontece entre os dois. Mas Machado parece dizer que, onde nada acontece, tudo pode acontecer e para que o percebamos, é preciso ler nas entrelinhas as marcas do desejo não explícito.
A complicação começa quando Conceição entra na sala onde Nogueira estava lendo um romance, fazendo hora e esperando pela meia-noite. O enredo segue descrevendo o inesperado encontro, numa noite de natal, entre um rapaz com dezesseis anos e uma mulher madura de trinta, que se mostrava camarada e compreensiva. Nogueira não acreditou na explicação e verificou que os olhos de Conceição "Não eram de pessoa que acabasse de dormir. Pareciam não ter ainda pegado sono".
O clímax da narrativa ocorre quando Conceição fica inquieta, andando de um lado para o outro e, quando se senta, cruza as pernas de uma maneira sensual, despertando a libido de Nogueira, que via em Conceição uma mulher “linda, lindíssima (...)”.
O desfecho, o encanto daquele momento termina quando o vizinho bate na janela, chamando Nogueira à Missa do Galo. Daquele dia em diante, nunca mais Nogueira conversou ou escreveu para Conceição. Restou-lhe somente a imagem do balanço do corpo de Conceição, enfiando-se pelo corredor, pisando mansinho, e sumindo de sua vida, deixando na lembrança de Nogueira, a incompreensão daquela “conversação” que teve com uma senhora, há muitos anos atrás.
O próprio narrador não consegue entender o que aconteceu naquela noite: "Há impressões dessa noite que me aparecem truncadas ou confusas", chegando até mesmo a mudar seus relatos a respeito de Conceição, que no início era somente simpática e se transforma em uma linda, belíssima mulher. Começamos a mudar nossas formas de enxergar também, somos conduzidos, levados pela narrativa. Seduzindo-nos sutilmente até chegar ao clímax seco, característica de Machado de Assis. As personagens se revelam e a sessão de análise chega ao fim. É o chamado que vem de fora: "Missa do Galo! – repetiram de fora batendo". É o momento de o nosso despertar, e o galo canta.
A linguagem
Machado usa um vocabulário e algumas construções sintáticas que às vezes parecem antigas, mas é a pura modernidade estilística.
As figuras presentes no texto
O autor nos mostra um lado pessimista e irônico a respeito do amor: “Mais baixo, a mamãe pode acordar.” “E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. [...] Afinal cansou; trocou de atitude e de lugar.Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo...” “O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.”
Percebemos também a presença da metáfora: "é a mesma missa da roça e que todas as missas se parecem.",“...a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar.”
Foco narrativo
Conto narrado em primeira pessoa: “eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte e não queria perdê-la.” E uma conversa inesperada vai acontecendo misturando-se à sensualidade, que é marca nos contos de Machado.
Estilo literário
Naturalista, pois os romances naturalistas se destacam pela abordagem extremamente aberta do sexo e pelo uso da linguagem falada. O resultado é um diálogo vivo e extraordinariamente verdadeiro, que na época foi considerado até chocante de tão inovador. Ao ler uma obra naturalista, tem-se a impressão de estar lendo uma obra contemporânea, que acabou de ser escrita.
Tempo
O tempo enleia e passa por dimensões por assim dizer elásticas, pois temos a sensação de mergulharmos naqueles momentos eternos e as horas não passam e nem temos a vontade de deixa-las passar, pois nosso sentimento, nosso lado psicológico foi afetado, ficamos hipnotizados até o desfecho.
Análise das personagens
D. Conceição é a personagem que dá espaço à esta viagem ao psique humano. O narrador, seu Nogueira – naquela ocasião com seus 17 anos de idade, é um personagem que participa da história e dá pistas ao leitor sobre a noite de Natal que tanto o intrigou. D. Conceição é uma personagem que vai crescendo ao longo da narrativa e torna-se uma mulher envolvente, sedutora. O jovem cheio de vigor vai percebendo D. Conceição e nos retrata-a.
As feições de Conceição, não são reveladas, mas deixa pistas para que o leitor observe seus movimentos sutis, como descreve em certos trechos: “De vez em quanto passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos”. Em outra cena, a sensualidade de Conceição é latente quando o narrador observa que as mangas do roupão branco, que Conceição usava, não estavam abotoadas e deixava metade dos braços aos olhos de Nogueira.
Além do jovem Nogueira e Dona Conceição, outras personagens são citadas durante a narrativa; Dona Inácia, mãe de Conceição e duas escravas. Há ainda um vizinho, o qual era esperado pelo narrador, para juntos, irem à Missa do Galo.
O espaço
Descrevendo o perfil físico de Conceição, o narrador, através de seu olhar, abre as possibilidades de visualização de cenas e de leitura ao leitor, que vai desvendando, analisando a personagem principal, o ambiente, as situações, como se estivesse em um consultório de psicanálise. Tudo é elaborado para que aquele que lê não tenha pressa de encontrar o desfecho. A sala pouco iluminada, a conversa entre Nogueira e Conceição meio interrompida pelos silêncios que se formavam é o espaço adequado para que se reconstrua, pouco a pouco, o cenário realizado pela narrativa.
Pretensões do autor ao falar das conversas entre as personagens
Nosso interior é aguçado, nos envolvemos, mas a narrativa mostra a realidade social da época e o autor deixa claro quando fala da escravidão que é citada pelo narrador personagem: “A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas.” E as usa como figura de linguagem para mostrar a escravidão da mulher, submissas aos maridos, pois D. Conceição mesmo sendo traída pelo marido permanecia passiva aceita a “outra” que era tida pela sociedade como mulher avançada: “...mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.”
Há segundas intenções nas ações de D. Conceição. Percebemos que se sente perturbada e vai até a sala: “Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura.” “Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova.” “Tinha um ar de visão romântica, não disparatava com meu livro de aventuras.”
Nogueira também tem segundas intenções em suas palavras "Já disse que ela era boa, muito boa" usa o advérbio “bom” com dois significados diferentes.
As mulheres daquela época liam romances superficiais como é o caso de A moreninha, citado na obra, em que a mulher era apenas uma “sinhazinha”, dominada pelo pai.
A narrativa segue e naquela noite de Natal, a clima que envolve as personagens é sedutora e misteriosa.
São olhares que se fixam "... perto ficavam nossas caras" “... sem desviar de mim os grandes olhos espertos gestos.", é uma aproximação do outro, são as partes do corpo que se mostram sutilmente “... e eu vi-lhe metade dos braços muito claros, e menos magros..." é o toque "... pôs as mãos no meu ombro...”, são as sensações e percepções que se fazem sentir '... como se tivesse um arrepio de frio..." . Enfim, nada é revelado, os vazios vão se formando e mais uma vez o leitor participa da história, preenche-os vazios ou não: tudo dependerá de seu repertório, por isso é uma narrativa aberta.
Existem momentos em que parece que tudo irá ser revelado, mas não se consegue perceber nitidamente o que acontece, pois o conto passa-se no interior de nossa imaginação. E o interior do ser humano é inesperado.
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
- Mas, Senhor Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
- Leio D. Inácia.
Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
- Ainda não foi? Perguntou ela.
- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
- Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
- Não! Qual? Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.
- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
- Justamente: é muito bonito.
- Gosta de romances?
- Gosto.
- Já leu a Moreninha?
- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.
E logo alto:
- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
- Já tenho feito isso.
- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
- Que velha o quê, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto que, também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
- Mais baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
- Eu também sou assim.
- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.
- Foi o que lhe aconteceu hoje.
- Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegávamos novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
- Mais baixo mais baixo...
Havia também umas pausas. Duas outras vezes pareceram-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
- Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
- São bonitos, disse eu.
- Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
- De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
- Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
- Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
- Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá que hão de ser horas; adeus.
- Já serão horas? Perguntei.
- Naturalmente.
- Missa do galo! Repetiram de fora, batendo.
-Vá, vá não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Pretígio - Ediouro - s/d.
ANÁLISE:Lena Leal
A frase inicial já nos leva a ambiguidade: "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta." Como entender, se nem mesmo o narrador entende? É a marca e a técnica que Machado usa em sua narrativa. Teremos sim que tentar elucidar o mistério da alma humana.
O enredo
Missa do galo é um conto de Machado de Assis, que não nos traz revelações surpreendentes, porém, como é próprio do autor, está carregado de reflexões do fundo da alma mostrando-nos as várias faces do comportamento humano. È um traço doce e melancólico sobre a relação homem mulher. Ele faz questão de mostrar o cenário e através dele nos envolve. Ele não faz questão de descrever as suas personagens e é uma característica do Naturalismo. Ele prefere descrever o lado psicológico delas e isso faz uma ruptura entre o que é real e o que é psicológico. É considerado moderno por justamente criar essa atmosfera de um flagrante do nosso dia-a-dia.
A estrutura
Toda a trama acontece na sala da frente, de uma casa mal assombrada, localizada na Rua do Senado, Rio de Janeiro. Havia uma mesa no centro da sala, algumas cadeiras, cortina na janela, um canapé e um espelho. Nas paredes, dois quadros completavam aquela atmosfera de cumplicidade entre Conceição e Nogueira.
O conto mostra o encontro e o tímido diálogo entre um jovem e uma senhora casados numa noite de Natal. Praticamente nada acontece entre os dois. Mas Machado parece dizer que, onde nada acontece, tudo pode acontecer e para que o percebamos, é preciso ler nas entrelinhas as marcas do desejo não explícito.
A complicação começa quando Conceição entra na sala onde Nogueira estava lendo um romance, fazendo hora e esperando pela meia-noite. O enredo segue descrevendo o inesperado encontro, numa noite de natal, entre um rapaz com dezesseis anos e uma mulher madura de trinta, que se mostrava camarada e compreensiva. Nogueira não acreditou na explicação e verificou que os olhos de Conceição "Não eram de pessoa que acabasse de dormir. Pareciam não ter ainda pegado sono".
O clímax da narrativa ocorre quando Conceição fica inquieta, andando de um lado para o outro e, quando se senta, cruza as pernas de uma maneira sensual, despertando a libido de Nogueira, que via em Conceição uma mulher “linda, lindíssima (...)”.
O desfecho, o encanto daquele momento termina quando o vizinho bate na janela, chamando Nogueira à Missa do Galo. Daquele dia em diante, nunca mais Nogueira conversou ou escreveu para Conceição. Restou-lhe somente a imagem do balanço do corpo de Conceição, enfiando-se pelo corredor, pisando mansinho, e sumindo de sua vida, deixando na lembrança de Nogueira, a incompreensão daquela “conversação” que teve com uma senhora, há muitos anos atrás.
O próprio narrador não consegue entender o que aconteceu naquela noite: "Há impressões dessa noite que me aparecem truncadas ou confusas", chegando até mesmo a mudar seus relatos a respeito de Conceição, que no início era somente simpática e se transforma em uma linda, belíssima mulher. Começamos a mudar nossas formas de enxergar também, somos conduzidos, levados pela narrativa. Seduzindo-nos sutilmente até chegar ao clímax seco, característica de Machado de Assis. As personagens se revelam e a sessão de análise chega ao fim. É o chamado que vem de fora: "Missa do Galo! – repetiram de fora batendo". É o momento de o nosso despertar, e o galo canta.
A linguagem
Machado usa um vocabulário e algumas construções sintáticas que às vezes parecem antigas, mas é a pura modernidade estilística.
As figuras presentes no texto
O autor nos mostra um lado pessimista e irônico a respeito do amor: “Mais baixo, a mamãe pode acordar.” “E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. [...] Afinal cansou; trocou de atitude e de lugar.Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo...” “O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.”
Percebemos também a presença da metáfora: "é a mesma missa da roça e que todas as missas se parecem.",“...a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar.”
Foco narrativo
Conto narrado em primeira pessoa: “eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte e não queria perdê-la.” E uma conversa inesperada vai acontecendo misturando-se à sensualidade, que é marca nos contos de Machado.
Estilo literário
Naturalista, pois os romances naturalistas se destacam pela abordagem extremamente aberta do sexo e pelo uso da linguagem falada. O resultado é um diálogo vivo e extraordinariamente verdadeiro, que na época foi considerado até chocante de tão inovador. Ao ler uma obra naturalista, tem-se a impressão de estar lendo uma obra contemporânea, que acabou de ser escrita.
Tempo
O tempo enleia e passa por dimensões por assim dizer elásticas, pois temos a sensação de mergulharmos naqueles momentos eternos e as horas não passam e nem temos a vontade de deixa-las passar, pois nosso sentimento, nosso lado psicológico foi afetado, ficamos hipnotizados até o desfecho.
Análise das personagens
D. Conceição é a personagem que dá espaço à esta viagem ao psique humano. O narrador, seu Nogueira – naquela ocasião com seus 17 anos de idade, é um personagem que participa da história e dá pistas ao leitor sobre a noite de Natal que tanto o intrigou. D. Conceição é uma personagem que vai crescendo ao longo da narrativa e torna-se uma mulher envolvente, sedutora. O jovem cheio de vigor vai percebendo D. Conceição e nos retrata-a.
As feições de Conceição, não são reveladas, mas deixa pistas para que o leitor observe seus movimentos sutis, como descreve em certos trechos: “De vez em quanto passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos”. Em outra cena, a sensualidade de Conceição é latente quando o narrador observa que as mangas do roupão branco, que Conceição usava, não estavam abotoadas e deixava metade dos braços aos olhos de Nogueira.
Além do jovem Nogueira e Dona Conceição, outras personagens são citadas durante a narrativa; Dona Inácia, mãe de Conceição e duas escravas. Há ainda um vizinho, o qual era esperado pelo narrador, para juntos, irem à Missa do Galo.
O espaço
Descrevendo o perfil físico de Conceição, o narrador, através de seu olhar, abre as possibilidades de visualização de cenas e de leitura ao leitor, que vai desvendando, analisando a personagem principal, o ambiente, as situações, como se estivesse em um consultório de psicanálise. Tudo é elaborado para que aquele que lê não tenha pressa de encontrar o desfecho. A sala pouco iluminada, a conversa entre Nogueira e Conceição meio interrompida pelos silêncios que se formavam é o espaço adequado para que se reconstrua, pouco a pouco, o cenário realizado pela narrativa.
Pretensões do autor ao falar das conversas entre as personagens
Nosso interior é aguçado, nos envolvemos, mas a narrativa mostra a realidade social da época e o autor deixa claro quando fala da escravidão que é citada pelo narrador personagem: “A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas.” E as usa como figura de linguagem para mostrar a escravidão da mulher, submissas aos maridos, pois D. Conceição mesmo sendo traída pelo marido permanecia passiva aceita a “outra” que era tida pela sociedade como mulher avançada: “...mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.”
Há segundas intenções nas ações de D. Conceição. Percebemos que se sente perturbada e vai até a sala: “Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura.” “Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova.” “Tinha um ar de visão romântica, não disparatava com meu livro de aventuras.”
Nogueira também tem segundas intenções em suas palavras "Já disse que ela era boa, muito boa" usa o advérbio “bom” com dois significados diferentes.
As mulheres daquela época liam romances superficiais como é o caso de A moreninha, citado na obra, em que a mulher era apenas uma “sinhazinha”, dominada pelo pai.
A narrativa segue e naquela noite de Natal, a clima que envolve as personagens é sedutora e misteriosa.
São olhares que se fixam "... perto ficavam nossas caras" “... sem desviar de mim os grandes olhos espertos gestos.", é uma aproximação do outro, são as partes do corpo que se mostram sutilmente “... e eu vi-lhe metade dos braços muito claros, e menos magros..." é o toque "... pôs as mãos no meu ombro...”, são as sensações e percepções que se fazem sentir '... como se tivesse um arrepio de frio..." . Enfim, nada é revelado, os vazios vão se formando e mais uma vez o leitor participa da história, preenche-os vazios ou não: tudo dependerá de seu repertório, por isso é uma narrativa aberta.
Existem momentos em que parece que tudo irá ser revelado, mas não se consegue perceber nitidamente o que acontece, pois o conto passa-se no interior de nossa imaginação. E o interior do ser humano é inesperado.
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